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Vale um CD!

Por Eduardo Curi

Revoluções na música são feitas a partir de boas ideias. A banda paulistana Portnoy está dando sua contribuição à mudança de padrão que está em curso hoje na indústria fonográfica. Seu primeiro trabalho, intitulado simplesmente de “O Disco” está à disposição para download gratuito no site da banda.

Até aí nada demais, mas se você quiser ter a versão física, basta você mandar qualquer coisa para a banda que eles te enviam um CD. Pode ser uma foto, um desenho, uma música, outro disco, um quadro, qualquer coisa, desde que seja um trabalho feito por você. Inclusive, este post vai me render um CD deles!

Conversei com o guitarrista e vocalista, Conrado, que conta como surgiu a banda e a ideia.

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Conrado
: O Portnoy surgiu no final de 2007. Eu e meu irmão Caio nos juntamos ao Lefê, baixista de primeira, que já conhecíamos do circuito alternativo. O nome da banda é uma referência ao Alexander Portnoy, o personagem hilário do livro “Complexo de Portnoy”, do escritor norte-americano Phillip Roth. Montamos o repertório e fomos pro estúdio pra gravar o disco de estreia que foi produzido pelo gaúcho Iuri Freiberger. O Caio deixou a banda logo depois. Na mesma noite em que ele anunciou sua intenção de largar a bateria pra tocar violão e cantar, o Lefê, que é baiano, me apresentou um conterrâneo dele que estava dando sopa aqui em São Paulo, o Kleber Kruschewsky. Fomos, no dia seguinte, pra um estúdio e ensaiamos das quatro da tarde às oito da manhã. Estava concluído o processo e assim foi: eu na guitarra e na voz, Lefê no baixo e Kleber na bateria.

Pegada: Como surgiu a ideia de trocar o disco por outros produtos?

Conrado: Acho que cobrar por música gravada é um sistema velho, pra um modelo velho de relação artista/ouvinte. O símbolo máximo desse modelo, inclusive, acaba de morrer. Acho que Michel Jackson leva pro túmulo (se o corpo dele for um dia pro túmulo) essa relação monárquica com rei, rainha, corte e seus súditos. A internet deu um xeque-mate na questão. Como ter um retorno pra pagar as cordas da guitarra que quebram? Fazendo show. E pra fazer show é preciso expandir o trabalho. O primeiro passo era fazer o que muita gente já faz: disponibilizar de graça as músicas pra download no site da banda. Também tínhamos na mão uma edição com encarte caprichado do CD. Pensei, então, numa forma de aproximar as pessoas da banda e tentar reproduzir com o disco físico o que já é feito via web. E como dinheiro não tinha nada a ver com isso, fechamos na ideia: a gente dá o CD e recebe em troca alguma coisa produzida por quem quer ouvi-lo. Isso incentiva a circulação de cultura, sempre dando crédito. Nem temos pretensão de reproduzir um Creative Commons, por exemplo. É uma coisa bem intimista, do Portnoy com seu público. A mesma relação que a gente busca ter por meio de outro canal do site, o LAB, onde colocamos músicas que acabam de ser feitas, tudo gravado na hora, em casa, pra que as pessoas ouçam e acompanhem a evolução de um trabalho que vai resultar no segundo disco do Portnoy.

Pegada: O que já foi recebido até agora, quantas trocas já fizeram?

Conrado: Já recebemos vídeo, desenho e até assinatura de revista. Algumas coisas mais elaboradas e outras bem simples, como a de um cara que mandou uma foto da estante de CDs dele com um espaço vago para o disco do Portnoy. Tá tudo bem no começo, na casa da dezena. Mas espero que passe rápido pra casa da centena, até que os discos que eu tenho aqui acabem. Começamos a colocar algumas coisas que chegaram no site da banda, no espaço do ESCAMBE!.

Pegada: Vocês conhecem o Circuito Fora do Eixo e a filosofia de economia solidária adotada dentro do circuito?

Conrado: Não conhecia e nunca participamos do Circuito Fora do Eixo. Vi o site e achei sensacional. É o tipo de coisa que eu mais gosto. Ao invés de ficar se moldando pra entrar num esquema que já existe, você cria seu próprio esquema. É como fazer punk rock. Se nos permitirem, o Portnoy tá dentro!

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Áudio de Pegada – Entrevista com Denio Costa

Denio Costa é um dos grandes nomes do áudio em Belo Horizonte. Já trabalhou com artistas de grande renome como Marina Lima e 14 Bis, foi técnico de som de grandes festivais como o Pop Rock Brasil e o Hollywood Rock e é proprietário da DGC Áudio, empresa que, entre outras atividades, tem um dos únicos (se não o único) cursos de áudio em Belo Horizonte.

A nossa coluna trocou alguns e-mails com esse grande técnico que atua ativamente na capacitação de profissionais do áudio para contar um pouco da evolução do mercado em BH e no país.

Pegada: Como você começou a trabalhar com áudio e como era o mercado quando começou?

Denio Costa: Iniciei minhas atividades em áudio no ano de 1978. Naquela época eu era carregador e trabalhava em uma empresa que fazia bailes de soul music. Nao haviam DJs e sim discotecários. Os discos eram de vinil, a maioria era importada e em 45 rpm. Eram raros os profissionais com muito conhecimento técnico, mesmo porque, o acesso à informação era muito limitado.

Os amplificadores de potência eram montados por meio de kits da Ibrape e outros sugeridos pela revista Nova Eletrônica. Raros eram os profissionais que contavam com amplificadores importados e os melhores eram à válvula. Havia muito empirismo.

Resolvi estudar eletrônica para facilitar o entendimento deste universo. Depois de um ano trabalhando com bailes parti para a sonorização ao vivo. Então tive acesso às mesas da Gianini, Power e Palmer. Trabalhava em uma mesa enorme da Gianini com 20 canais para microfone, um exagero para a época. As mais comuns possuíam 12 ou 16 canais. Então conheci as consoles da Kelsey, Yamaha e Soundcraft de 16 a 24 canais.

Trabalhei em diversas empresas locadoras de equipamentos e banda de bailes, uma excelente escola. Comprava revistas sobre áudio, como a Mix, em lojas especializadas. O custo não era baixo, mas não havia opções. Eu já era viciado em manuais. Lia todos com afinco. Chegava mais cedo nas empresas em que trabalhei para fazer experiências com os equipamentos. Isso me trouxe muito conhecimento e ajudou bastante no resultado dos trabalhos.

No início dos anos 80, trabalhei com diversas bandas na explosão do rock nacional. Meu trabalho já era reconhecido no meio musical. Em 1993 trabalhei no Hollywood Rock com a empresa americana Clair Brothers. Essa é a maior empresa de sonorização do mundo. Trabalhei ao lado de diversos profissionais e pude operar um sistema de alta qualidade. Lá, estavam as caixas S4, amplificadores SAE, crossovers EV de 3 vias, compressores DBX, uma console fabricada por eles com um som excelente, consoles Yamaha PM4000, entre outros brinquedinhos.

Ao assistir ao show do Alice In Chains, fiquei impressionado com o som que o engenheiro deles tirou. Um senhor de barba branca, macacão jeans e sandálias do tipo franciscano. Um típico country. Nesse dia fiquei muito incomodado e cheguei a me questionar sobre qual seria minha nova profissão. Na verdade fiquei péssimo, apesar dos elogios dos técnicos da Clair e demais colegas. Não adiantou, fiquei enlouquecido. Como ele pôde fazer aquele som?

Questionei ao pessoal técnico da Clair se havia alguma limitação para as bandas nacionais. Todos os técnicos tiveram acesso ao mesmo sistema. Era realmente o trabalho do operador em conjunto com o som da banda. Resolvi voltar atrás e me dar uma chance. Decidi investir em conhecimento. Pedi a eles uma listagem de livros para eu comprar.

O primeiro levou seis meses para chegar. Internet? Isso não existia para nós. Comprei o livro trocando cartas com a editora nos EUA e pagando a eles através do Banco do Brasil. Quando meu primeiro livro sobre áudio chegou sai até para jantar com minha esposa, tamanha satisfação que sentia. A partir daí fui comprando tudo que achava interessante e estudando sozinho em casa. Vez ou outra me encontrava com profissionais em shows internacionais ou feiras e tentava tirar minhas dúvidas.

Quem me ajudou bastante foi o Sólon do Valle (editor técnico da revista Áudio Música e Tecnologia). Um verdadeiro mestre. Sabe tudo mais 30%. Foi ele quem me encorajou a realizar palestras mostrando o pouco que eu sabia.

Com a chegada da internet tudo ficou muito mais fácil e ágil. Hoje tenho o privilégio de ter acesso direto a diversos profissionais, fabricantes e distribuidores ao redor do mundo. Participei de treinamentos em algumas fábricas de equipamentos nos EUA e Europa. Provavelmente em novembro estarei na Sencore/EUA para mais um treinamento sobre medidores acústicos.

Pegada: como foi a evolução do mercado e dos técnicos desde então ate hoje?

DC: Se avaliarmos os técnicos da minha geração, veremos que a maioria é autodidata. Alguns estudaram mais, outros menos e há os que não estudaram. Porém, todos têm muita experiência. Acredito que se investissem mais em conhecimento seriam ainda melhores.

O mercado apresentou uma evolução como uma curva exponencial. Tudo era muito difícil e o acesso a bons equipamentos era raro. Porém, com a abertura da importação passamos a ter acesso aos mesmos equipamentos que o resto do mundo. O custo caiu e ficou viável para as empresas investirem.

Na sequência veio o áudio digital que está em pleno processo de evolução. Muitas coisas mudaram em pouco tempo. O DVD substituiu o vídeo cassete e já esta sendo substituído pelo Blu-ray e outros. O vinil foi substituído pelo CD que já está sendo substituído pelo SACD (Super Audio CD) e outras tecnologias.

Ouvíamos áudio em caixas Altec com amplificadores à válvula e prés puríssimos. Hoje, o planeta ouve MP3. Essa pode vir a ser a nova referência para as pessoas, infelizmente. A fita de 2″ foi substituída pelo HD e por aí vai.

Os técnicos que estão chegando agora não tiveram a oportunidade de conhecer estes equipamentos e tecnologias. A vantagem é que já havia computadores em seus berços e isso os torna muito próximos das novas tecnologias. Só não devem se esquecer de que o som e nosso sistema auditivo é analógico por origem.

Pegada: Qual a melhor formação para um técnico de áudio?

DC:
A maior possível, passando por todas as etapas. No meu caso posso afirmar que até a experiência de carregar caixas acústicas ajudou na minha formação. Montar caixas acústicas, consertar equipamentos (manutenção eletrônica), montar multicabos, cabos para caixas, energia e microfones, alinhar sistemas, experimentar diversos sistemas para conhecer seus timbres, comparar equipamentos em bancada e na estrada, operar shows e tudo o mais.

Não acredito que os extremos sejam bons. Nem uma pessoa com muita prática nem outra com muita teoria seriam completos. É necessário unir os dois mundos. Podemos ver isso no mercado. Profissionais que chegam em um bom resultado sem saber como e outros que conhecem muito a teoria mas não conseguem operar um sistema. O profissionais de estúdio deveriam fazer som ao vivo e vice-versa.

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Entrevista de Pegada – Mariana Zande (Faverock)

Nosso repórter de Pegada Marcus Vinícius trocou uma ideia rápida com Mariana Zande, produtora do Pelos de Cachorro, uma das pessoas que estiveram à frente do Faverock e que também está articulando a volta dele.

Confira:

Pegada: Conte um pouco da história do Faverock. Quais foram as maiores conquistas?

Mariana Zande: O Faverock começou com um “junta-junta”. Quatro bandas (Pelos de Cachorro, Anjos de Metal, Molusco e Púlgas) ainda inexperientes que queriam criar um espaço para tocar e fazer uma movimentação no morro. No lugar do palco teve um palanque de madeira, os equipamentos não eram bons, era um pouco do que cada banda usava para ensaiar, a divulgação foi feita com xerox de um cartaz feito à mão, era tudo muito “na tora”. Só quando esse pessoal viu que a iniciativa era legal, que o público correspondeu bem e que coisa poderia ficar interessante, é que começaram a pensar em um evento de qualidade. O terceiro Faverock já tinha apoio da Prefeitura, palco e som bons. Foi na terceira edição também que o evento passou a acontecer na divisa entre o bairro e o aglomerado da Serra, entre o morro e o asfalto. A proposta de fazer dialogar pessoas de origens diferentes e quebrar os preconceitos sobre o rock e favela, surgiram aí. Um evento organizado pelas próprias bandas, de graça, no meio da rua. Acabou incentivando até o surgimento de novas bandas.

No 4º e 5º Faverock já haviam bandas que surgiram dessa agitação causada pelo próprio movimento. Foi quando pensamos o Faverock como mais que um evento ou festival. Fizemos oficinas de guitarra, baixo, bateria e voz, exposição do acervo de fotos e debates durante o 6º Faverock. Foi quando começamos os circuitos, eventos menores, com três ou quatro bandas nas outras periferias da cidade e região metropolitana, e uma mostra no fim do ano na Serra, com todas as bandas. O movimento evoluiu, as bandas também, as articulações do Faverock tornaram as bandas mais profissionais.

Pegada:
O Faverock era um coletivo importante, com boa visibilidade. Quando e por que as atividades pararam?

MZ:
Para a sétima edição do Faverock o desgaste foi muito grande. Naturalmente, com a evolução e profissionalização dos trabalhos individual das bandas, o pessoal começou a ficar sem tempo, e muitas vezes, o Faverock deixou de ser prioridade. No fim, um movimento de 14 bandas acabou em um evento feito por cinco ou seis pessoas. Nosso principal apoiador “deu pra trás” um dia antes do evento, ficamos sem palco, sem alvará, sem liberação do ponto de luz e R$ 1.000 em caixa para fazer dois dias de shows gratuitos. Com a melhor divulgação e atenção da imprensa que já havíamos conseguido.

Acabamos fazendo em um pequeno bar próximo ao local onde era para coisa acontecer, sinalizamos como chegar ao bar e alugamos um som. O problema foi que até a chuva sacaneou, houve gente que foi e não viu a sinalização, achou que não tinha rolado e foi embora, o som ficou numa Kombi em frente ao bar e a banda lá dentro, o público na rua. No segundo dia, na última banda, chamaram a polícia por causa do barulho. Enfim, acabamos a sétima edição exaustos e desmotivamos, na certeza de que enquanto todos mundo não quisesse carregar o Faverock, não ia funcionar.

Pegada: O Faverock está de volta? Em que pé está a nova movimentação?

MZ: Estamos com vontade de trazer o Faverock de volta sim. Com outra forma de funcionamento, outras ações. Por enquanto estamos conversando com as bandas da Serra mesmo, mas não estamos fechados. A ideia é conseguir primeiro os apoios e patrocínios, via leis de incentivo e editais da iniciativa privada. Temos que fazer melhor do que já fizemos, não dá para retroceder. Vamos fazer tudo com calma, quando começar a dar resultados voltamos a todo vapor!

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Entrevista de Pegada – Cahue Silva – Queijo Elétrico

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Você conhece o Queijo Elétrico? Com uma proposta de trabalhar a cena musical de forma diferente, este selo já vem executando alguns trabalhos em Belo Horizonte. Cahue Silva, um dos agitadores do selo, conversou com nosso repórter Marcus Vinícius e nos conta um pouco mais sobre essa empreitada:

Pegada: O que é o Queijo Elétrico? Como surgiu a ideia de formá-lo?

Cahue Silva:
O Queijo Eletrico é um selo de musica independente interessado em divulgar a música produzida atualmente, sem covers e, preferencialmente, em português. Montamos o selo inicialmente para dar suporte ao Tempo Plástico, e seguimos a mesma linha para lidar com outras bandas. A criação do selo é uma forma de desenvolver nossas ideias em relação à música e a cidade.

Pegada: Quais as ações principais que vocês desenvolvem?

CS:
Buscamos aumentar a interação ente o público e as bandas, através dos shows e das mídias de divulgação. Usamos meios que às vezes extrapolam o convencional para divulgar e shows em espaços pouco explorados, como vias públicas e bares que fazem cara feia para música autoral, além dos lugares que já nos recebem sempre bem, como A Obra. Temos o Manifesto do Queijo, que resume nossas idéias e é distribuído nos eventos do Queijo.

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Também usamos muito a internet como meio de comunicação, vamos fazer uma rádio e uma TV para web.

Pegada: Como funciona a organização do Queijo Elétrico (reuniões, blog, estúdio…)?

CS: O estúdio fica junto ao escritório, onde produzimos o Queijo e fazemos alguns trabalhos. Algumas ideias que surgem são conversadas e planejadas, e cada um ocupa sua função de forma natural. O estúdio funciona para gravações, além dos ensaios do Tempo Plástico e do Modz. Às vezes recebemos também a banda Maitê. O blog é a forma mais direta de contato com as pessoas enquanto não concluímos o site.

Pegada:
Como vocês veem o Queijo Elétrico no futuro?

CS:
Com um estúdio gigante, e usando a internet. De alguma forma que não seja gordo, careca e velho!

Pegada:
Como vocês entendem o termo “música independente”?

CS: Música.

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Rock 45s agita o Cineclube Savassi na sexta, 1/5

Rock 45s com Kid Vinil, 1/5

Nessa sexta de feriado, dia 1, a festa Rock 45s vai tomar conta do Cineclube Savassi. Promovida pelo selo Vinyl Land Records com o apoio de Pegada, contará com discotecagens de Kid Vinil, lendário músico e jornalista, Luiz PF (codinome de Luiz Valente, proprietário do selo), e do DJ de Pegada JJBZ. O evento, já em sua quinta edição, propõe um apanhado geral do rock’n’roll por meio de compactos de sete polegadas em vinil, também conhecidos como “forty-fives”.

Apesar de ter perdido força no Brasil com o surgimento do CD e do MP3, na última década, o mercado de vinil vem crescendo regularmente desde 2004, segundo dados da indústria inglesa. Tendo adquirido status cult, as bolachinhas transformaram-se em objetos de desejo de muitos, ferramentas essenciais para DJs e plataforma de lançamentos de bandas alternativas. Dedicando-se exclusivamente a esse nicho, Luiz Valente criou a Vinyl Land Records, responsável por trabalhos de artistas como Autoramas, Dead Lover’s Twisted Heart e Fungos Funk no formato.

Valente conversou com o repórter de Pegada David Dines a respeito da trajetória do selo. Confira:

PF ao pé da letra

PF ao pé da letra

Como surgiu a ideia de montar um selo especializado em vinil?
Desde 2002 já venho organizando festas com o nome de Vinyl Land, a primeira foi na época que eu era dono do “Lugar” na rua Leopoldina. O objetivo era “equilibrar” um pouco a cena de DJs da cidade, e abrir espaço pra DJs que realmente investiam no seu trabalho, pois nessa epoca começou aparecer muita gente tocando CDRs e MP3 (não que eu tenha nada contra isso…). Nesse mesmo período comecei a pensar na possibilidade de discotecar também, pois já fazia isso informalmente colocando o som ambiente da casa. Mas decidi que, se fosse realmente levar a coisa a sério, gostaria de fazer somente com vinil, por ser mais divertido e desafiador. Depois de um tempo começou a dar vontade de tocar coisas que nunca foram lançadas em vinil (tipo musica brasileira de 96 pra frente), então resolvi que, já que não existia, eu iria fazer um selo focado nisso. Então a ideia partiu mais da minha vontade de comprar esses discos. Quando conheci os Dead Lover’s em 2007, conversamos sobre a ideia e o projeto se concretizou.

A Vinyl Land também investe na divulgação dos seus lançamentos na Europa. Como está sendo a recepção no exterior?
Se o termo “investir” significar comprar espaços em revistas, fazer propaganda em radio, TV ou coisa parecida, a resposta seria não, já que o selo é muito pequeno ainda. Mas, se falarmos em termos de tempo e divulgação feitas por mim mesmo, então o investimento é grande. Sempre quando toco procuro incorporar as bandas do selo no set e, seja qual for a cidade, passo nas lojas de disco e vendo os compactos no melhor estilo “conta-gotas”. Foi nesse esquema que consegui colocar os Autoramas na Rough Trade (tradicional loja de música independente de Londres), o que deu uma repercussão bem legal pra banda. Normalmente as pessoas recebem o som de bandas brasileiras super bem, mas vai de banda pra banda. Mas se percebe que pelo menos ficam curiosos e ouvem de cabeça aberta. O objetivo de minha volta agora em Maio é conseguir um distribuidor europeu para o selo, o que abre a possibilidade de acelerar o processo de novos lançamentos.

Quais as dificuldades de se trabalhar com esse tipo de formato no país?
Como trabalho com um mercado de nicho, o objetivo principal é primeiramente chegar no seu público-alvo. Já que o selo é uma extensão natural das festas Vinyl Land e das minhas discotecagens, isso é feito de forma intuitiva, com calma, paciência e muita ajuda da internet também. Não é muita gente que consome vinil no Brasil, mas é um público fiel que corre atrás do que quer, e que foi deixado de lado no país já faz mais de 10 anos. A principal dificuldade é a Polysom (ultima fabrica da America Latina) ter fechado em 2007 e ainda não ter reaberto. Com a confirmação da compra dela pela Deck Disc no fim de 2008, recebi noticias essa semana que eles devem reabrir em julho, o que provavelmente significa algo mais pro fim do ano. Se conseguirem atingir um padrão legal de qualidade e um preço acessível, acredito que vão surgir muitos outros selos (A Monstro e a Gravadora Discos já fazem isso a um tempo) e bandas interessados em prensar suas bolachas, o que seria sensacional. Quero mais é que todo mundo adote o padrão “virtual e vinil” preu poder comprar os discos também [risos]. São tantas bandas legais que temos no Brasil, que a Vinyl Land nunca dará conta do recado… Fico na torcida que isso realmente aconteça, enquanto isso vamos fazendo o que podemos pra não deixar essa cultura morrer.

Serviço:

Festa Rock 45s com Kid Vinil
Sexta-feira, 1 de maio, 23h
Local: Cineclube Savassi – R. Levindo Lopes, 358
DJs: Kid Vinil, Luiz PF (Vinyl Land) e JJBZ (Pegada)
Entrada: R$ 15 e R$ 10 (até 1h)

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Entrevista de Pegada – RockNova

Nossa repórter de Pegada Renata Almeida esteve na cola da banda RockNova, nos últimos dias. O grupo foi um dos selecionados pelo público para se apresentar no Festival Conexão em Belo Horizonte, que terminou ontem, tendo a honra de abrir as apresentações no dia 17 de abril.

Foto: Renata Almeida

Foto: Renata Almeida

Renata conversou com Gustavo Lago, vocalista da banda, logo após a apresentação no Parque Municipal e, antes havia conversado com a banda toda que contou como é a ralação para se chegar a algum lugar tocando as próprias músicas.

Pegada – Como foi tocar no Conexão?

Gustavo – Para nós, a apresentação no Conexão foi super positiva. A estrutura era maravilhosa. A equipe, nem se fala. A gente pôde dar continuidade ao nosso trabalho e divulgá-lo para um público novo que ainda não tinha acesso a ele. A energia estava alta e as pessoas que estavam lá, nos assistindo, foram bastante receptivas. Foi uma experiência indescritível para a banda e a gente só tem a agradecer a todos que colaboraram para que a gente pudesse estar lá.

Pegada – Esse ano vocês lançaram o álbum RockNova, como foi o processo de gravação do álbum? Vocês tiveram ajuda de lei de incentivo à cultura ou patrocinador?

Gustavo – A banda começou mais ou menos em agosto, setembro de 2007. Menos de um ano depois, a gente já tinha finalizado as composições ou, pelo menos, estavam em processo de finalização e resolvemos então gravar nosso primeiro CD, porque a gente acha que esse é o primeiro passo de uma banda. Qualquer banda que queira levar um trabalho autoral a serio, né!? A gente sentiu necessidade de ter um CD, de ter um registro autoral. Então, começamos esse processo de gravação no início de 2008. Como a gente tinha essa necessidade, um tanto quanto urgente, a gente não esperou muito por capitação de lei de incentivo, nem nada não. Nós resolvemos, por uma questão de iniciativa, bancar o nosso primeiro CD independente e dai tiramos do bolso mesmo, dos recursos que a gente tinha em mãos e resolvemos gravá-lo. Fomos ao estúdio Lima Lab. O CD foi produzido pelo Daniel Lima e tem partes gravadas no estúdio do Monno, o Tremor Void e outras no Lima. Finalizamos o CD mais ou menos em outubro; não, até antes um pouco; mas em outubro foi o nosso lançamento lá no Teatro Dom Silvério e a partir disso, nós estamos ai, lutando para divulgar o CD e tocar o projeto.

Pegada – Vocês citaram o estúdio da Monno, vocês farão agora o MTV independente junto com eles, não e mesmo?

Gustavo – Coincidentemente a gente acabou de sair de lá. A gravação foi hoje junto com essa entrevista que a gente está dando. Eu não sei quando entra no ar, algum de vocês sabem?

Nenel – Acho que no começo do mês.

Xexel – Começo de maio.

Gustavo – Acho que no começo de maio. Eles fizeram uma entrevista com a gente super bacana, com a gente e com o pessoal do Monno,. Espero que vocês curtam.

Nenel – A gente tocou nossa música de trabalho, ‘Nova’. Inclusive acabamos de fazer o vídeo dela.

Pegada – Falem um pouco do CD, ele tem algum contexto ou vocês nem pensaram sobre isso?

Gustavo – Sobre essa questão de qual é o conceito do cd, bem, não foi uma coisa muito pensada ou pré-refletida, não tentamos buscar um conceito x ou y. Acho que o CD surgiu de uma maneira muito espontânea. A banda foi formada inicialmente pelos meninos, eu entrei depois. Eu sou parte do processo inicial, mas eu fui o último a ser convidado. O guitarrista, o Borba, já tinha algumas músicas de autoria dele que eles já estavam tocando antes de eu entrar na banda. Então, quando eu entrei, já existia uma ideia mais ou menos formatada de quais seriam as músicas que fariam parte do CD, pelo menos inicialmente. Depois, acabaram entrando composições minhas e a gente fechou um CD que a gente acha, que eu acho, extremamente conciso, mas com uma diversidade de estilos grande. Tem umas baladas, tem umas músicas que são mais agitadas, por eu não ter outra palavra pra dizer. Mas eu acho que nunca teve essa preocupação em “vamos parecer alguma coisa ou vamos ter uma cara mais rock, uma cara mais pop, um cara … “

Xerllex – A gente não seguiu uma linha.

Gustavo – Foi uma coisa bem espontânea mesmo, das composições que a gente fazia em casa, a gente trouxe pra banda e a banda montou o arranjo e a partir disso, nós resolvemos registrar.

Nenel – O interessante é que no segundo CD, quando a gente for lançar, não sei, ano que vem talvez, já vai ter muita música composta pelos dois, pelo Borba e pelo Guto. Eu acho que hoje, eles já podem fazer músicas pensando num segundo disco, dentro de um conceito. É uma possibilidade, Guto. Coisa que antes não aconteceu, porque quando a banda começou a maioria das músicas já estavam prontas.

Gustavo – Já tinha um violão e voz, uma ideia formatada. Quando eu entrei, eu vim trazendo composições minhas, assim como o Borba já tinha umas dele.

Nenel – A gente lapidou as músicas, claro, com a ajuda de produtor. Primeiramente com a gente, nós quatro no estúdio. Mas a maioria já existia, então eu acho assim, que no próximo CD a gente pode parar e pensar em ter um conceito. A gente vai querer dar uma cara pra ele, existe essa possibilidade, que no primeiro, pela nossa vontade de lançar um trabalho, foi uma coisa muito natural. Pegamos músicas que já existiam e as lapidamos.

Pegada – O som de vocês passeia pelo pop e rock alternativo atingindo tanto o público underground, quanto o grande público, a grande massa, vocês acham que esse som diferenciado vai mudar no segundo CD ou essa base vai continuar?

Xerllex – Eu acho que não.

Gustavo – Eu acho até muito engraçado, porque todo mundo traz uma opinião sobre o que eles acham do nosso som. Eu acho que parte muito também de quem escuta e qual música escutou. Isso gera uma variedade boa. Nossa intenção nunca foi ser pop, assim como nunca foi ser rock, assim como nunca foi ser indie, assim como nunca foi ser muita coisa. Eu acho que é até um clichê das bandas de hoje falarem isso, mas eu acho que é uma verdade. A questão é que a gente gosta muito de todos os estilos, esses estilos, e é claro que uma composição que você faz em casa, vai se aproximar daquilo que você esta escutando. Então eu acho que não tem uma intenção de ser mais pop ou indie, o que vai ser do segundo CD, é o quê sair mesmo dos nossos…

Nenel – Na verdade, eu acho que a gente não sabe como vai ser o próximo CD. Porque a gente está trabalhando nesse e os meninos estão compondo. Então estão surgindo composições que eles montam no estúdio, mas a gente ainda não pegou pra lapidar essas músicas. Então a gente sinceramente não sabe como vai ser.

Gustavo – Mas querendo uma suposição, se é que é necessário isso pra alguém, a gente vai seguir a mesma linha de raciocínio mesmo, que é o que a gente gosta. A gente segue o mesmo não porque a gente quer seguir o mesmo, mas porque ele é fruto da espontaneidade.

Nenel – Eu acho que o mais honesto que a gente pode fazer é continuar fazendo nosso trabalho de uma forma natural. Ele saiu de uma forma super natural, a gente não forçou nada na hora de gravar o CD, em momento algum alguém chegou e falou vamos fazer isso para ficar mais radiofônico ou não, ou pra ficar mais alternativo. De jeito nenhum, foi natural! A gente colocou do jeito que a gente achou que a música ia ficar melhor.

Gustavo – Eu acho bacana isso, eu vejo isso no RockNova, pelo menos assim conversando com os três. A nossa música de trabalho foi escolhida porque é a primeira do CD e a gente achava que ela tinha uma energia legal. A gente não chegou nem a escolher muito. Foi uma coisa muito espontânea.

Xerllez – Inclusive foi a última a entrar no CD.

Gustavo – Exatamente, foi a última música composta do CD inteiro que a gente achava que era a mais atual, por isso mais a cara da banda. A ultima musica composta talvez seja o processo de um fim de alguma coisa que a gente tinha começado e por isso mesmo que ela entrou. Enfim, eu nem sei falar qual vai ser a próxima musica de trabalho.

Xerllex – O que a gente mais pode falar sobre o CD, sobre o projeto é que a gente é o mais honesto possível com as nossas convicções.

Pegada – E quais são suas convicções?

Xerllex – Tocar o que a gente gosta. Parece clichê isso também, mas tocar o que a gente gosta. Eu acho que tocando o que a gente gosta e sentindo prazer no que a gente está fazendo, a gente atinge o publico e o publico gosta da gente.

Foto: Renata Almeida

Foto: Renata Almeida

Pegada – Vocês falaram que não tem como definir se o som de vocês é pop ou se é indie ou se é alternativo ou se é rock, mas como vocês definiriam o som de vocês? Quais as influências da banda?

Gustavo – Na verdade eu não acho que a gente não seja nem pop, nem rock, nem indie. O que eu quero dizer é que a gente nunca parou pra pensar em compor com essa intenção, de ser isso. Se saiu isso, eu até concordo. Se você então me pergunta como é que a gente se vê, eu acho isso complicado. Primeiramente, a gente tem um julgamento sobre as próprias composições né, as composições nossas mesmos, mas eu acho que a gente vai estar é nisso mesmo, é esse rock moderno com uma vertente pop que eu acho moderno e muito atual. Tem uma grande gama de pessoas ai fazendo esse rock, inclusive na Inglaterra, o The Kooks que está vindo ao Brasil. A gente tá nessa linha.

Nenel – A influência geral é The Beatles.

Xerllez – Pearl Jam, Ramones

Nenel – Na verdade, as influências são diversas dentro da banda. Dentro do mundo de rock, MPB e até bossa nossa. As influencias são tão diversas! Eu acho difícil falar “nós temos influencias tal, tal e tal”, porque cada um escuta uma coisa, tem banda que um gosta e o outro não gosta.

Gustavo – Minha maior influencia é o Nenel. (Risos)

Nenel – A gente acha pontos em comum com os Beatles.

Xerllez – Acho que essa diferença de nós quatro, do que escutar, da escola de cada um, isso é o que eu acho que á a coisa mais importante dentro da banda. É exatamente terem quatro pessoas que, querendo ou não, têm influências de musicas diferentes.

Nenel – Completamente diferentes.

Xerllex – Exatamente. Completamente diferentes que juntou nesse monstro.

Nenel – Se a galera reparar bem, pode ver essas influências na maneira de tocar, na postura no palco, mas também na maneira como toca, a pegada de cada um, isso tudo vem de nossas influencias, não é questão de imitar, mas é natural, você escuta tanto uma coisa que ela vai te influenciar. E a gente também ta aberto para novas influências. Acho importante a gente também estar se arejando, renovar.

Pegada – Vocês participaram de muitos festivais como o Grito Rock, o Conexão Vivo e tocam nas casas consideradas berço do cenário alternativo de BH, como A Obra e o Matriz, característica de bandas do movimento independente, do underground. Vocês se consideram alternativos e independentes ou vocês estão independentes e querem ir pro mainstream?

Gustavo – Eu continuo dizendo, parece até absurdo, mas da nossa falta de intenção, né?! Eu acho o som do RockNova despretensioso, eu acho o caminho do RockNova despretensioso, eu acho complicado em falar o quê que a gente pretende no dia de amanhã. Eu acho verdadeiramente que a música independente é a música atual, o cenário hoje é o cenário independente. Eu acho que o caminho é o caminho independente, a música independente hoje é independente, porque cada vez mais essa questão do mainstream, das grandes gravadoras, está perdendo força, isso é visível. Existem bandas grandes ai, que já foram do grande mercado que escolheram ser independentes e começaram a seguir um caminho independente, abriram mão das gravadoras, estão lançando selos, estão ligando o nome a selos próprios independentes, sem ter que ter essa obrigação de gravadora. Então, eu acho que a gente tenta não levantar bandeira nenhuma. O RockNova tenta não pensar “ah, eu sou independente e foda-se”. Eu não gosto de levantar nenhuma bandeira, eu acho que a gente é parte ativa da música independente, da parte alternativa inclusive. O termo alternativo pra mim é muito sério. O que é o alternativo? Parece que é uma alternativa para alguma coisa que está acontecendo, mas eu acho que tudo hoje é alternativo. Como eu diria, não tem mais um formato. Os formatos de banda caíram por terra, todos. As grandes gravadoras já falam em falência. Eu acho que tudo é uma alternativa. Ficar levantando essa bandeira de eu sou independente, bem, não tem nada de mais comum do que isso.

Xerllez – Eu vou ser sincero. Vou dar a minha opinião nessa história. Eu acho bobagem, no final das contas não sei nem se o termo seria esse ‘bobagem’, mas essa separação de mainstrem, questão de público, não tem mais essa separação.

Gustavo – Ela já existiu, não tem mais.

Xerllez – Não tem. Mainstream, alternativo, quem escuta aquilo e não escuta isso. Eu acho que isso não existe mais não. Eu acho que nisso mesmo que você falou que a gente se enquadra, a gente consegue agradar gregos e troianos, diga-se de passagem. Então, eu não acredito mais nessa separação.

Nenel – Talvez nosso grande segredo seja também não querer agradar demais. Eu vou falar isso de uma maneira séria porque há quem queira agradar os alternativos e ai faz um som totalmente diferenciado com essa intenção de querer agradar o público mais underground e se preocupa tanto com isso que fica até uma coisa um pouco pedante. Desculpa ai se eu vou atingir alguém, não queria nem estar comentando nesse tom. Por outro lado, tem também essa preocupação de algumas bandas de ser aquela coisa massificada, de fazer um som extremamente popular e de uma maneira que vai vender e que vai agradar grandes produtores e não sei mais o quê. E talvez a gente esteja conseguindo transitar nos dois meios exatamente porque a gente não levantou bandeira nenhuma. Foram composições extremamente espontâneas que saíram de uma maneira extremamente espontânea mesmo e que, exatamente por isso, agrada os dois públicos, porque não tem essa intenção de ficar querendo levantar uma bandeira de “ah, eu sou underground” ou “ah, eu sou o popular, o mainstream”.

Pegada – O que vocês acham da cena independente de BH? Vocês concordam com a lenda de que BH é cemitério de artista, tem que sair de BH pra fazer sucesso?

Xerllez – Eu acho que Belo Horizonte é uma panela de pressão prestes a estourar, porque tem muita banda, muito som legal, muita gente boa. Nós estamos assim, numa geração de bandas novas fantásticas.

Gustavo – Eu acho que não há grandes vantagens nem em ser do mainstream, nem em não ser. O Udora é uma banda que estava no meio independente junto com a gente há pouco tempo e agora está ai assinando com a Som Livre. Já está dando um passo para o Mainstream, parece que eles já tem até umas músicas tocando na Rede Globo. Acabamos de fazer um show com eles, eles nos convidaram. É disso que eu estou falando, não tem mais barreira mainstream e indie ou independente. O Udora que é uma banda que está com gravadora, tocando na Rede Globo, na Malhação, está nos convidando para tocarmos juntos e a gente ta ai no cenário independente.

Nenel– E eu acho que o mais legal em ter esse tanto de banda fantástica em BH é que o pessoal ta começando, porque eu acho que é muito recente, coisa de poucos anos, está começando a ter a visão de que não existe mais o sou eu, o cada um por si. A gente está vendo que é preciso, e é uma grande preocupação nossa desde o início, estar junto e ajudar quem a gente pode. Se ajudar.

Gustavo – Eu acho que o cenário é fortalecido quando as bandas começam a se unir. Quando você cria um cenário. E eu acho que isso já implica numa pluralidade de artistas. Assim, você está tentando fazer um movimento e não simplesmente uma banda que se basta por si só. E eu acho que o interessante do atual momento belo-horizontino é que está sendo criado um cenário da música independente. Sendo criado assim, ele já existia faz algum tempo e continua sendo lapidado a cada dia. E a galera está muito unida, muito unida mesmo, de uma maneira que eu não vi faz muito tempo. Nós, por exemplo, criamos um festival no final do ano passado que se chamava ‘Fórmula Indie’. Nós tivemos três edições desse festival. Contamos com a presença de muitos músicos belo-horizontinos, de várias bandas, teve o Sânzio do Cálix, o Bochecha que era do Cartoon, teve o Léo do Transmissor, teve o Ricardo Koctus que é do Pato Fu, que é um músico que hoje está lançando um trabalho independente dele, um trabalho próprio, vai lançar clipe agora, teve no mainstream, teve reconhecimento nacional e internacional inclusive, e hoje tai, lançando um trabalho independente, apoiando a gente, estava no nosso festival, fez uma participação incrível lá. As bandas estão se fortalecendo, uma está preocupada em apoiar a outra e eu acho que acabou isso, todo mundo já entendeu que é preciso unir forças. Resultado disso é a quantidade de coletivos que está surgindo pra mexer com música, apoiar, lançar festivais e criar um cenário.

Xerllez – Inclusive o Pegada que está falando com a gente. Parabéns!

Gustavo – Parabéns!

Nenel – Eu fico pensando, eu acho que a gente ainda está aprendendo a lidar com isso, todos nós, porque é uma realidade novíssima. Essa realidade tem o que, 10 anos? Menos? É tão novo que não tem ninguém que saiba falar sobre isso. A gente está aprendendo na marra mesmo, todos nós, os coletivos, o pessoal do Outrorock, das bandas. A gente está aprendendo na marra a lidar com isso, com os erros e os acertos.

Pegada – Thiago Sarkis (ex-Roadie Crew, Whiplash, Solada, entre outros) fez a seguinte pergunta: Como vocês esperam conseguir espaço em rádio, TV, na mídia sabendo que tem tanto jabá por ai? Que tem muita gente que tem que pagar pra aparecer?

Gustavo – Eu não sei se eu sou otimista por uma realidade que a gente está vivendo ultimamente, mas nossa música está tocando na 98FM e a gente não pagou nenhum centavo, está tocando na rádio Inconfidência e a gente nunca pagou um centavo e nas rádios do interior então, nem se fala. Na minha opinião, essa lógica de que a gravadora banca o artista e só toca em rádio se é da gravadora é uma ideia falida. As rádios estão vendo que o público também está querendo se focar em quem faz música de uma maneira mais independente e mais própria. A diferença é que no independente a música é nossa, não no sentido de ser uma composição minha, mas você se apropria dela, ela é do jeito que a gente quer. Não tem uma grande gravadora exigindo, não tem força a externa, você consegue se apropriar daquilo, aquilo é seu. Parece então, que as rádios 98FM e a Inconfidência, reconheceram nosso trabalho. Que existe jabá, todo mundo sabe, mas eu acho, e eu quero acreditar nisso, que isso é uma tendência que está diminuindo.

Nenel – Eu acho que a gente é muito novo aqui para dar alguma dica pra galera, mas a dica que eu posso dar é acreditar no seu trabalho, que se ele for bom sua música vai poder tocar na rádio, é o que está acontecendo com a gente.

Xerllex – E trabalhar, trabalhar! Ser chato, divulgar, gastar seu tempo, porque senão você não chega a lugar nenhum. Tem que ter raça. Nós, graças a Deus, estamos colhendo uns frutos bacanas, mas tem que ralar.

Gustavo – Só pra terminar, existia essa lógica de que você só conseguiu ser uma banda de sucesso ou uma banda que deu certo quando você assinasse com uma gravadora ou atingisse no mainstream. Eu acho que hoje, dar certo na música, é muito diferente disso, as bandas estão dando certo, os projetos são viáveis, o projeto RockNova é um projeto super viável, só que tem que ralar, tem que arregaçar a manga.

Nenel – Não é só tocar hoje. Como disse o pessoal do Macaco Bong, músico agora é pedreiro. A gente toca, mas a gente divulga, a gente faz divulgação de Orkut, a gente liga pra jornal para ver se eles querem divulgar uma notinha nossa. Amigos nossos e pessoas que nem conhecem a gente, mas gostam do som, ligam na 98FM e pedem a música ou elogiam pelo Orkut. É isso, a gente trabalha e a gente toca, mas faz tudo.

Gustavo – Músico não é só mais quem está dentro do estúdio e quem está cantando não. Hoje, você tem que ser muito mais que isso.

rocknova-010

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Entrevista de Pegada – Malu Aires (Parte 2)

Na segunda-feira, você conferiu a primeira parte da entrevista que Roger Deff, nosso repórter de pegada, fez com Malu Aires, organizadora do BH Indie Music e vocalista da banda Junkbox. Confira hoje o restante do bate-papo que Roger teve com ela:

Pegada: Quais caminhos uma banda iniciante deve seguir para encontrar seu espaço no atual cenário?

Malu Aires: Todos que iniciam, uma hora se veem prontos. Nessa hora, devem preparar o melhor que produziram e apresentar ao público. Todas as vitrines virtuais devem ter manutenção atenta (boas gravações, fotos e um release sério). As bandas autorais iniciantes deveriam frequentar mais shows de bandas independentes e sentir a qualidade e diversidade da cena para conhecerem o mercado a que pretendem se inserir e pertencer. Fazer amigos é mais produtivo que contatos.

Aqui, pelo BH Indie Music abrimos curadorias e audições com as Pré-Seletivas BH Indie Music. Este trabalho vem nos servindo para o crescimento produtivo do cenário independente, unindo mais bandas de talento ao circuito, tendo um monitoramento ético e respeitoso para com as bandas iniciantes, tanto como para bandas ultra-prontas, mas sem público formado.

Propomos com este projeto, abrirmos espaço e oportunidade para todos os que estão preparados para trabalhar com a sua própria música, além de darmos diretrizes para a evolução dos trabalhos iniciantes.

Leia-se, uma boa banda, aquela que possui formação redonda, em que todos os músicos estão conscientes do que fazem no palco, que se apresentam com confiança, com responsabilidade, porque tocar ou cantar bêbado é pra quem tá em fim de carreira e não no início dela. Uma criação competente (arranjos, letras, melodias), somada a bons instrumentistas (lembrando que voz também é instrumento), não passa despercebida do público. A banda também deve estar preparada para assumir este mercado, ter um bom álbum para vender nos shows (já que eles ainda não dão tanto dinheiro pras bandas), ter disponibilidade para viagens e agendas e saber fazer capital para financiar a promoção do seu trabalho. Isso vale pra cena independente mundial. O trabalho dá trabalho. E a banda precisa de atenção e tempo para dar certo.

Pegada: Quais trabalhos do circuito independente têm chamado a sua atenção?

MA: Temos conosco mais de 94 bandas nacionais que já se apresentaram nos projetos do BH Indie Music. Todas me chamam a atenção. Cada uma é extremamente diferente da outra. Não citaria uma, sem falar de todas e hajam páginas…

Tenho vibrado com cada novo disco que sai dos estúdios e com cada show apresentado pelos principais festivais do país. Torço por todos e fico muito feliz quando vejo bandas das quais ninguém ouviu falar antes do I e II BH Indie Music, sendo tratadas com respeito e com o espaço merecido.

Pegada: Falando em “independente”, como você define este termo? É uma questão de postura por parte do artista, de manter a autonomia do seu trabalho, ou algo mais próximo ao simples “isolamento” do mainstream?

MA:
Independência é autonomia, sim. Não há confronto ou ataque ao que é produzido no mainstream. Há coisas maravilhosas e super populares. Todos os independentes estavam extasiados no show do Radiohead, por exemplo. Presenciaremos uma tendência natural da formação de uma coluna sólida dos independentes, o que poderá parecer isolamento, mas será apenas a organização de um bloco forte que, num futuro, tenderá a frequentar o mesmo espaço do mainstream, mas com a postura independente assumidamente clara.

O termo independente deveria ser usado para seu significado primeiro: o de artistas livres das amarras e contratos leoninos das gravadoras. Artistas que criam sem o dedo dos produtores das majors e que vendem, sem precisar dividir lucro com distribuidoras, gravadoras, editoras e empresários. A produtividade independente vem sendo bastante ousada nos meios de criação. A própria liberdade do artista, livre do apelo consumista da cultura de massa, já possibilita esse caminho. É neste mercado de música independente que nos encontramos com quem realmente faz a música. Como artista independente, gosto desse cara-a-cara, desse desafio. Me integra como criadora. Sem intermediários entre mim e o meu público. Sei fazer, sozinha, meu trabalho e posso prová-lo.

Pegada: Em sua opinião, a cena em Belo Horizonte é democrática? Porque?

MA: A verdadeira cena existe para quem quiser estar nela. A verdadeira cena independente tem que ser democrática. Gêneros, rótulos, a forma como o artista apresenta sua criação, cidades de origem, sotaques, público pequeno da banda, nada deve ser pretexto para excluir uma boa banda.

A qualidade e a dedicação à música pesam na credibilidade e força da cena. Quem faz a cena é a boa banda independente e o acúmulo de bandas independentes. Se não for democrática, não é a verdadeira cena. É um cenário privado montado para montar em cima da cena independente. Qualquer roteiro hoje, vira cena. Basta uma manchete, uma postagem em blog, uma verborragia embasada na criatividade e filosofia da comunicação.

É falso pensarmos que quem faz a cena acontecer são os projetos voltados a elas. Eles são só estímulos, são empurrões na produtividade local, mas que só se sustentam pela qualidade e esforço dos artistas criadores da música independente. A democracia só existe se você participa dela. E se você é músico, criador, inserido no mercado independente de música e, ainda assim, não vê espaço para ser visto e ouvido, não está procurando a cena certa.

Vale ressaltar que a cena independente, por si só, não é tudo. Ela já existe e está consolidada. Temos que mudar a bandeira e erguer a do “mercado de música independente” e começar, urgentemente, a falar sobre ele e promovê-lo, para que a cena não se desmotive, ou morra.

E hoje tem Projeto Matriz com as bandas Claro Enigma, de Betim, Verto, de Ribeirão das Neves e Hold Your Breath, de BH.

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