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Áudio de Pegada – Entrevista com Denio Costa

Denio Costa é um dos grandes nomes do áudio em Belo Horizonte. Já trabalhou com artistas de grande renome como Marina Lima e 14 Bis, foi técnico de som de grandes festivais como o Pop Rock Brasil e o Hollywood Rock e é proprietário da DGC Áudio, empresa que, entre outras atividades, tem um dos únicos (se não o único) cursos de áudio em Belo Horizonte.

A nossa coluna trocou alguns e-mails com esse grande técnico que atua ativamente na capacitação de profissionais do áudio para contar um pouco da evolução do mercado em BH e no país.

Pegada: Como você começou a trabalhar com áudio e como era o mercado quando começou?

Denio Costa: Iniciei minhas atividades em áudio no ano de 1978. Naquela época eu era carregador e trabalhava em uma empresa que fazia bailes de soul music. Nao haviam DJs e sim discotecários. Os discos eram de vinil, a maioria era importada e em 45 rpm. Eram raros os profissionais com muito conhecimento técnico, mesmo porque, o acesso à informação era muito limitado.

Os amplificadores de potência eram montados por meio de kits da Ibrape e outros sugeridos pela revista Nova Eletrônica. Raros eram os profissionais que contavam com amplificadores importados e os melhores eram à válvula. Havia muito empirismo.

Resolvi estudar eletrônica para facilitar o entendimento deste universo. Depois de um ano trabalhando com bailes parti para a sonorização ao vivo. Então tive acesso às mesas da Gianini, Power e Palmer. Trabalhava em uma mesa enorme da Gianini com 20 canais para microfone, um exagero para a época. As mais comuns possuíam 12 ou 16 canais. Então conheci as consoles da Kelsey, Yamaha e Soundcraft de 16 a 24 canais.

Trabalhei em diversas empresas locadoras de equipamentos e banda de bailes, uma excelente escola. Comprava revistas sobre áudio, como a Mix, em lojas especializadas. O custo não era baixo, mas não havia opções. Eu já era viciado em manuais. Lia todos com afinco. Chegava mais cedo nas empresas em que trabalhei para fazer experiências com os equipamentos. Isso me trouxe muito conhecimento e ajudou bastante no resultado dos trabalhos.

No início dos anos 80, trabalhei com diversas bandas na explosão do rock nacional. Meu trabalho já era reconhecido no meio musical. Em 1993 trabalhei no Hollywood Rock com a empresa americana Clair Brothers. Essa é a maior empresa de sonorização do mundo. Trabalhei ao lado de diversos profissionais e pude operar um sistema de alta qualidade. Lá, estavam as caixas S4, amplificadores SAE, crossovers EV de 3 vias, compressores DBX, uma console fabricada por eles com um som excelente, consoles Yamaha PM4000, entre outros brinquedinhos.

Ao assistir ao show do Alice In Chains, fiquei impressionado com o som que o engenheiro deles tirou. Um senhor de barba branca, macacão jeans e sandálias do tipo franciscano. Um típico country. Nesse dia fiquei muito incomodado e cheguei a me questionar sobre qual seria minha nova profissão. Na verdade fiquei péssimo, apesar dos elogios dos técnicos da Clair e demais colegas. Não adiantou, fiquei enlouquecido. Como ele pôde fazer aquele som?

Questionei ao pessoal técnico da Clair se havia alguma limitação para as bandas nacionais. Todos os técnicos tiveram acesso ao mesmo sistema. Era realmente o trabalho do operador em conjunto com o som da banda. Resolvi voltar atrás e me dar uma chance. Decidi investir em conhecimento. Pedi a eles uma listagem de livros para eu comprar.

O primeiro levou seis meses para chegar. Internet? Isso não existia para nós. Comprei o livro trocando cartas com a editora nos EUA e pagando a eles através do Banco do Brasil. Quando meu primeiro livro sobre áudio chegou sai até para jantar com minha esposa, tamanha satisfação que sentia. A partir daí fui comprando tudo que achava interessante e estudando sozinho em casa. Vez ou outra me encontrava com profissionais em shows internacionais ou feiras e tentava tirar minhas dúvidas.

Quem me ajudou bastante foi o Sólon do Valle (editor técnico da revista Áudio Música e Tecnologia). Um verdadeiro mestre. Sabe tudo mais 30%. Foi ele quem me encorajou a realizar palestras mostrando o pouco que eu sabia.

Com a chegada da internet tudo ficou muito mais fácil e ágil. Hoje tenho o privilégio de ter acesso direto a diversos profissionais, fabricantes e distribuidores ao redor do mundo. Participei de treinamentos em algumas fábricas de equipamentos nos EUA e Europa. Provavelmente em novembro estarei na Sencore/EUA para mais um treinamento sobre medidores acústicos.

Pegada: como foi a evolução do mercado e dos técnicos desde então ate hoje?

DC: Se avaliarmos os técnicos da minha geração, veremos que a maioria é autodidata. Alguns estudaram mais, outros menos e há os que não estudaram. Porém, todos têm muita experiência. Acredito que se investissem mais em conhecimento seriam ainda melhores.

O mercado apresentou uma evolução como uma curva exponencial. Tudo era muito difícil e o acesso a bons equipamentos era raro. Porém, com a abertura da importação passamos a ter acesso aos mesmos equipamentos que o resto do mundo. O custo caiu e ficou viável para as empresas investirem.

Na sequência veio o áudio digital que está em pleno processo de evolução. Muitas coisas mudaram em pouco tempo. O DVD substituiu o vídeo cassete e já esta sendo substituído pelo Blu-ray e outros. O vinil foi substituído pelo CD que já está sendo substituído pelo SACD (Super Audio CD) e outras tecnologias.

Ouvíamos áudio em caixas Altec com amplificadores à válvula e prés puríssimos. Hoje, o planeta ouve MP3. Essa pode vir a ser a nova referência para as pessoas, infelizmente. A fita de 2″ foi substituída pelo HD e por aí vai.

Os técnicos que estão chegando agora não tiveram a oportunidade de conhecer estes equipamentos e tecnologias. A vantagem é que já havia computadores em seus berços e isso os torna muito próximos das novas tecnologias. Só não devem se esquecer de que o som e nosso sistema auditivo é analógico por origem.

Pegada: Qual a melhor formação para um técnico de áudio?

DC:
A maior possível, passando por todas as etapas. No meu caso posso afirmar que até a experiência de carregar caixas acústicas ajudou na minha formação. Montar caixas acústicas, consertar equipamentos (manutenção eletrônica), montar multicabos, cabos para caixas, energia e microfones, alinhar sistemas, experimentar diversos sistemas para conhecer seus timbres, comparar equipamentos em bancada e na estrada, operar shows e tudo o mais.

Não acredito que os extremos sejam bons. Nem uma pessoa com muita prática nem outra com muita teoria seriam completos. É necessário unir os dois mundos. Podemos ver isso no mercado. Profissionais que chegam em um bom resultado sem saber como e outros que conhecem muito a teoria mas não conseguem operar um sistema. O profissionais de estúdio deveriam fazer som ao vivo e vice-versa.

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