Pegada Recomenda – Colorido Artificialmente e “A Tradicional Família Mineira” nada tradicional…

Por Flávio Charchar

Em meados de 2009, a banda Colorido Artificialmente (Belo Horizonte) lançou seu álbum de estreia, “A Tradicional Família Mineira”. Formada por João Guilherme Dayrell (guitarra e voz), Manuel Horta (guitarra), Bruno Faleiro (baixo) e Fernando Monteiro (bateria), em 2007, o grupo vem apresentando seu trabalho na medida do possível devido a questões geográficas (alguns membros se encontram morando fora da nossa capital). Mesmo com poucas apresentações, as várias horas de estúdio e ensaios valeram a pena. Com duas participações especiais, surge um trabalho nada tradicional feito por essas figurinhas ja presentes há algum tempo na cena de Belo Horizonte. Manuel Horta, por exemplo, ja apareceu aqui mesmo com seu trabalho solo, “Pequeno Céu”.

Uma construção comum no grupo, preenchendo todas as lacunas com muita intensidade, são os rebuscados arranjos de guitarra, muito coesos melodicamente, com a simplicidade marcante das linhas de baixo que sustentam as harmonias. Já as letras, remetem a antigas memórias, relacionamentos e pontos de vista muito pessoais, em que João (que com exceção de “Estrangeiro”, escrita em parceria com o baixista Bruno, escreveu todas as letras) se expressa poeticamente, em um texto fragmentado que caracteriza e se identifica muito com o som da banda, envolvendo as mudanças de tempo e clima existente nas canções.

Embalando o clima melancólico e poético do disco, a primeira faixa, “Distopia”, é um prato cheio para guitarras com notas em timbres bem claros e levemente distorcidos, além de partes muito díspares entre si, porém casadas de forma bem trabalhada e entrando no clima do título da música. Seguindo ainda a linha do indie rock, “Vai Ver” surge com uma levada mais rápida e a primeira surpresa é a bateria, bem estruturada e criativa, mas sem exagerar ao rebuscar um pouco mais, trazendo mais peso pra banda. Destaque para o final, muito bem executado e estimulante. “Volta de São Paulo” ja marca uma mudança na linha de composição, com muitas dissonâncias, quebras de tempo mais complexas e mais presa às guitarras, o que deixa o baixo mais solto no conjunto.

Enfim, chegamos a minha faixa favorita: “A Casa e o Sol”. Com uma bela harmonia, mais simples e direta do que aparece no restante do álbum, a voz de Jeniffer Souza (convidada, vocalista das bandas Cinza e Transmissor) se destaca, mas a conversa entre ela e João torna o conjunto ainda mais interessante, preenchendo com um violão e pequenas vocalizações, descansando a velha fórmula das guitarras, baixo e bateria (exceto no final apoteótico).

Ja na metade do caminho, entra “Novena (Duas Vozes)”, mais sombria e voltando com peso à onda indie rock das primeiras faixas, além de um longo instrumental ao final. Já “Babel”, com participação de Lucas Diniz, entra com o clima de “A Casa e o Sol”, porém na veia indie rock, menor e mais direta, com uma construção mais simples que suas outras “irmãs”, além da valorização dos vocais contracenando juntos. “Estrangeiro” volta a diminuir o andamento dessa viagem pelas minúncias de Minas Gerais. Mais calma e de um dinamismo bem dosado, além de uma ideia semântica um pouco mais direta se comparada às outras letras, possivelmente pela coautoria de João e Bruno, a faixa ganha seu destaque, abrindo caminho para o final do disco, com “1948”. Encerrando de forma icônica (o título é uma referência clara a “1984”, de George Orwell), a faixa resume todas as linhas de trabalho da banda, abrandando o andamento, mas não descendo até o ponto de “Estrangeiro” e sem chegar à tempestuosa “Novena (Duas Vozes)”, culminando em um belo final instrumental extenso e explosivo, do jeito que o álbum pede e de forma já característica da banda.

Muito coeso e bem trabalhado, com uma qualidade de gravação que surpreende, “A Tradicional Familia Mineira” é uma viagem nada tradicional por vários fragmentos dessa terrinha, embalada por harmonias de boa qualidade e muita poesia e sentimento. Com destaque para as faixas “A Casa e o

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