Pegada Recomenda: Retrofoguetes – “Chachacha”

“Por Flávio Charchar”

Se existe uma palavra para descrever o novo trabalho dos baianos do Retrofoguetes é: surpresa. A cada música um estilo musical diferente é absorvido por esse trio instrumental soteropolitano, em composições muito bem arranjadas, ótima qualidade de gravação e muito swing. Dando sequência ao trabalho iniciado em 2003 com o primeiro disco “Ativar Retrofoguetes!”, mais focado na surf music e temas circenses, Morotó Slim (Guitarra), Rex (Bateria) e CH (Baixo), trazem “Chachachá” com muitas novidades e participações especiais, desde os produtores André T e Nancy Viégas até Joe (ex-Retrofoguete que hoje toca com a Pitty) e Aroldo Macedo, filho de Osmar (Armandinho, Dodô e Osmar são criadores da guitarra baiana, instrumento utilizado e venerado pelo guitarrista dos Retrofoguetes, Morotó Slim).

No faixa a faixa, a obra lembra a trilha sonora de algum filme de Quentin Tarantino, com muitas referências ao cinema noir e filmes policiais dos anos 70. Começamos com “Vênus Cassino”: muito dançante e com um baixo marcante, mescla uma levada funk com jazz e soul muito marcada pela percussão e bateria. Em seguida, “Fuzz Manchu” muda bastante a onda, tendo como principais componentes a guitarra que abusa da famosa distorção no nome da música (o fuzz, consagrado por Hendrix) e um órgão, criando uma intensidade impressionante, com riffs que abusam do dinamismo e minimalismo musical. Já em “Constelacion”, voltamos a algo mais sutil, um tango muito bem harmonizado pela guitarra e com uma bela “cama” composta pelo acordeon e bateria. De muito bom gosto, a música abre caminho para a próxima faixa, “Enmascarado”, com uma introdução possuída pelo tempero latino e um clima de filmes de espionagem e mulheres “femme-fatale”. A guitarra com muito delay e timbres mais limpos já caminha mais pra onda da surf music, em um tema mais parado que o resto da onda do CD, mas bastante tenso.

Na sequência temos “O Falso Turco”, com uma temática mais circense, de volta às raízes da banda no primeiro CD, trazendo um clima de estranheza e mistério. Parece que a música realmente incorpora um personagem, com partes muito distintas uma das outras e variações de si mesmas, como se cada uma fosse uma característica do indivíduo. A marimba dá um toque delicado em cima dos riffs fortes e marcados da composição.

Eis que surge então, “Maldito Mambo”, gritando James Bond em ilhas exóticas. Muito swing, o nome do CD se faz ver aqui. Os metais estão fantásticos, com arranjos clássicos pontuando cada mudança na música. Destaque para a gravação da bateria, com bumbos e tons muito bonitos, tanto quanto em “Vênus Cassino” (primeira faixa), além de um pequeno solo fantástico da percussão.

E nessa linha mais dançante, surge “Mademoiselle Zazel” (a primeira pessoa atirada de um canhão em um circo foi uma mulher chamada Zazel). Agora a “onda” circense abre o jogo, com muita polca e a volta dos riffs distorcidos, muito bem construídos e sem faltar com nenhum elemento do clima da canção.

“Wreining Rouing Mai Maind”: vocais! Sim, saímos por um momento do instrumental e, como o próprio nome diz, entramos em um “possível inglês” cantado pelo guitarrista Morotó. Um rockabilly muito contagiante e ranzinza mostra outra vertente musical da banda, com muito bom humor e lap steel, além de uma sonoridade muito diferente do resto do disco, criando uma atmosfera de instrumentos desplugados. Ainda nos “billys”, a banda segue para o psychobilly fervoroso em seguida, na faixa “Um Diabo Em Cada Garrafa”. Lembrando timbres do stoner rock em alguns momentos e muita precisão da linha de baixo de CH, além de solos elaborados e harmonizações interessantes por Slim. Ja “Um Foguete Para Memphis” pega de onde “Wreining Rouing Mai Maind” parou, com muito rockabilly e a boa e velha origem do rock´n roll.

“Santa Sicília” acalma os ânimos, dedicando-se aos bons e velhos gangsters e famílias italianas, em uma atmosfera que mistura acordeon, palmas e repetições de notas, criando inúmeras sobreposições de vozes melódicas. Mais introspectiva, abre caminho para a leveza de “Bikini, 1958”, uma balada surf-music muito bonita com clima de namoros de verão. Destaque para o ukelelê e as sutis intervenções eletrônicas no meio da música, lembrando uma mistura de tremolo com delay.

Faltando duas para terminar, “Tirem Esses Eletrodos de Mim”, uma “porrada” de surf music clássica, ótima para perseguições de carro e enrascadas daquelas cheias de “pow” e “crash” dos anos 60 e 70. Muito intensa e com riffs bem elaborados e distorcidos, preenche a parte mais “pesada” do trabalho. Contudo, “Chachachá” se encerra com “Absyntho”, muito calma e uma atmosfera lounge, muito Cuba e México misturadas em uma balada de sedução cativante. Destaque para o meio da música em diante, que tem uma crescida instigante e cheia de dinamismo, para cair em um solo bonito e impactante feito um sedativo, ou seja, mais que o suficiente pra terminar essa viagem entre tantos estilos musicais e muito “paisagismo musical”. Retrofoguetes, “Chachachá”: escutem, mas, principalmente, se divirtam e dancem bastante, pois é o que a banda mais faz e, espero eu, que continuem fazendo.

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