Entrevista de Pegada – Malu Aires (Parte 2)

Na segunda-feira, você conferiu a primeira parte da entrevista que Roger Deff, nosso repórter de pegada, fez com Malu Aires, organizadora do BH Indie Music e vocalista da banda Junkbox. Confira hoje o restante do bate-papo que Roger teve com ela:

Pegada: Quais caminhos uma banda iniciante deve seguir para encontrar seu espaço no atual cenário?

Malu Aires: Todos que iniciam, uma hora se veem prontos. Nessa hora, devem preparar o melhor que produziram e apresentar ao público. Todas as vitrines virtuais devem ter manutenção atenta (boas gravações, fotos e um release sério). As bandas autorais iniciantes deveriam frequentar mais shows de bandas independentes e sentir a qualidade e diversidade da cena para conhecerem o mercado a que pretendem se inserir e pertencer. Fazer amigos é mais produtivo que contatos.

Aqui, pelo BH Indie Music abrimos curadorias e audições com as Pré-Seletivas BH Indie Music. Este trabalho vem nos servindo para o crescimento produtivo do cenário independente, unindo mais bandas de talento ao circuito, tendo um monitoramento ético e respeitoso para com as bandas iniciantes, tanto como para bandas ultra-prontas, mas sem público formado.

Propomos com este projeto, abrirmos espaço e oportunidade para todos os que estão preparados para trabalhar com a sua própria música, além de darmos diretrizes para a evolução dos trabalhos iniciantes.

Leia-se, uma boa banda, aquela que possui formação redonda, em que todos os músicos estão conscientes do que fazem no palco, que se apresentam com confiança, com responsabilidade, porque tocar ou cantar bêbado é pra quem tá em fim de carreira e não no início dela. Uma criação competente (arranjos, letras, melodias), somada a bons instrumentistas (lembrando que voz também é instrumento), não passa despercebida do público. A banda também deve estar preparada para assumir este mercado, ter um bom álbum para vender nos shows (já que eles ainda não dão tanto dinheiro pras bandas), ter disponibilidade para viagens e agendas e saber fazer capital para financiar a promoção do seu trabalho. Isso vale pra cena independente mundial. O trabalho dá trabalho. E a banda precisa de atenção e tempo para dar certo.

Pegada: Quais trabalhos do circuito independente têm chamado a sua atenção?

MA: Temos conosco mais de 94 bandas nacionais que já se apresentaram nos projetos do BH Indie Music. Todas me chamam a atenção. Cada uma é extremamente diferente da outra. Não citaria uma, sem falar de todas e hajam páginas…

Tenho vibrado com cada novo disco que sai dos estúdios e com cada show apresentado pelos principais festivais do país. Torço por todos e fico muito feliz quando vejo bandas das quais ninguém ouviu falar antes do I e II BH Indie Music, sendo tratadas com respeito e com o espaço merecido.

Pegada: Falando em “independente”, como você define este termo? É uma questão de postura por parte do artista, de manter a autonomia do seu trabalho, ou algo mais próximo ao simples “isolamento” do mainstream?

MA:
Independência é autonomia, sim. Não há confronto ou ataque ao que é produzido no mainstream. Há coisas maravilhosas e super populares. Todos os independentes estavam extasiados no show do Radiohead, por exemplo. Presenciaremos uma tendência natural da formação de uma coluna sólida dos independentes, o que poderá parecer isolamento, mas será apenas a organização de um bloco forte que, num futuro, tenderá a frequentar o mesmo espaço do mainstream, mas com a postura independente assumidamente clara.

O termo independente deveria ser usado para seu significado primeiro: o de artistas livres das amarras e contratos leoninos das gravadoras. Artistas que criam sem o dedo dos produtores das majors e que vendem, sem precisar dividir lucro com distribuidoras, gravadoras, editoras e empresários. A produtividade independente vem sendo bastante ousada nos meios de criação. A própria liberdade do artista, livre do apelo consumista da cultura de massa, já possibilita esse caminho. É neste mercado de música independente que nos encontramos com quem realmente faz a música. Como artista independente, gosto desse cara-a-cara, desse desafio. Me integra como criadora. Sem intermediários entre mim e o meu público. Sei fazer, sozinha, meu trabalho e posso prová-lo.

Pegada: Em sua opinião, a cena em Belo Horizonte é democrática? Porque?

MA: A verdadeira cena existe para quem quiser estar nela. A verdadeira cena independente tem que ser democrática. Gêneros, rótulos, a forma como o artista apresenta sua criação, cidades de origem, sotaques, público pequeno da banda, nada deve ser pretexto para excluir uma boa banda.

A qualidade e a dedicação à música pesam na credibilidade e força da cena. Quem faz a cena é a boa banda independente e o acúmulo de bandas independentes. Se não for democrática, não é a verdadeira cena. É um cenário privado montado para montar em cima da cena independente. Qualquer roteiro hoje, vira cena. Basta uma manchete, uma postagem em blog, uma verborragia embasada na criatividade e filosofia da comunicação.

É falso pensarmos que quem faz a cena acontecer são os projetos voltados a elas. Eles são só estímulos, são empurrões na produtividade local, mas que só se sustentam pela qualidade e esforço dos artistas criadores da música independente. A democracia só existe se você participa dela. E se você é músico, criador, inserido no mercado independente de música e, ainda assim, não vê espaço para ser visto e ouvido, não está procurando a cena certa.

Vale ressaltar que a cena independente, por si só, não é tudo. Ela já existe e está consolidada. Temos que mudar a bandeira e erguer a do “mercado de música independente” e começar, urgentemente, a falar sobre ele e promovê-lo, para que a cena não se desmotive, ou morra.

E hoje tem Projeto Matriz com as bandas Claro Enigma, de Betim, Verto, de Ribeirão das Neves e Hold Your Breath, de BH.

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