Entrevista de Pegada – Malu Aires (Parte 1)

Foto: Andrea Maia

Foto: Andrea Maia

Você provavelmente já ouviu a voz dela. Em 2002, Malu Aires cantou o tema de abertura da novela “O Clone”, que foi ao ar pela Rede Globo. Atualmente, Malu é vocalista da banda Junkbox e gere o projeto BH Indie, que em suas duas edições mobilizou mais de 90 bandas independentes de várias partes do Brasil. Além disso, Malu cuida do Projeto Matriz, que rola todas as quintas-feiras no Matriz. Nosso repórter de pegada Roger Deff bateu um bom papo com ela e você confere a primeira parte da entrevista neste post.

Pegada: Fale sobre o projeto BH Indie Music. Como surgiu a idéia?

Malu Aires: O BH Indie Music foi uma idéia enquanto formação de um projeto voltado ao mercado da música independente, No momento em que rolavam discussões e conversações entre as bandas interessadas no assunto. Hoje, comporta-se como um conjunto de ações, com atitudes, posturas e trabalhos voltados a esse mercado. Menos filosofias e mais realizações. A ideia transformada imediatamente em prática. Precisávamos de uma ponte de diálogos entre os fazedores de cena e os compradores dela, em que tivéssemos uma representação enquanto bandas. Algo que falasse por todos nós sem os intermediadores clássicos: produtores, promoters e agentes culturais. Era urgente que criássemos nossas ferramentas de comunicação, de abertura e gestão de espaços e de diálogos com agitadores de outras partes. Que pudéssemos abrir uma possibilidade de ação independente. Tornarmo-nos genuinamente independentes para produzirmos nosso próprio mercado, um novo mercado.

Não há espaço para todas as bandas nos festivais, então criamos nosso próprio festival aberto a todos que queiram se apresentar. Não há projetos nas casas voltados às bandas independentes, criamos nossos próprios projetos e gerenciamos o local, como o Projeto Matriz que está se desenvolvendo aceleradamente. Não há distribuidores para os nossos discos, criamos ferramentas e possibilidades de distribuição autônomas. Não há produtores interessados na nova música, sejamos nossos próprios produtores.

O BH Indie Music só deu certo porque era urgente que as bandas independentes tivessem este espaço para trocar experiências musicais, amigos da cena, um espaço o qual as bandas escolhessem e não que escolhesse as bandas.

Pegada: Neste tempo de estrada você pôde ver a realidade de diversas bandas do Estado. Em sua opinião, quais são as maiores dificuldades encontradas pelas bandas para a divulgação de seus trabalhos?

MA: Com os adventos da internet e da mídia virtual é impossível pensarmos em barreiras, mas em possibilidades nunca antes imaginadas. Acredito que as bandas, que não estão em visibilidade e que não estão ao acesso do grande público, não conhecem a internet. Essa ferramenta maravilhosa que nos deu autonomia de irmos aonde quisermos, inclusive na casa do público.

Hoje não é tão difícil pra quem tem banda larga e tempo disponível pra comunicação virtual. Claro que a qualidade técnica e artística do que é postado, ajuda na divulgação do seu trabalho. Músicas mal-gravadas, a falta de portifólio fotográfico, um release que só conta as desavenças e desmanches de uma banda (fulano saiu e entrou beltrano que não quis ficar e, então eu larguei a guitarra e cobri a bateria…) só descredibilizam o trabalho.

Enquanto show, esta é uma forma de divulgação indispensável para as bandas. Aí tocamos na ferida doída. A falta de espaços voltados à musica independente é uma realidade de ponta-a-ponta no país. E o respeito merecido ao gênero também está em falta por parte de alguns empresários de casas de shows. Nestes casos, a falta de postura das cenas locais dá margem a esse tipo de ignorância. Mais propriamente a desorganização, o não mapeamento das bandas ativas (vulgo: desunião), provoca a escassez de produtos de shows, que provoca a falta de interesse empresarial em absorvê-los.

Pegada: O público atual está mais preparado para absorver trabalhos autorais? Qual o papel dos festivais neste processo?

MA: Tudo o que a gente ouve na música, é autoral. É inédita quando lançamos ao público, depois, torna-se conhecida e reconhecida. Vivíamos na completa ignorância, pensando que o público estava despreparado para o novo. O público consome o novo, o antigo, o que é indicado por terceiros e o que só ele conhece.

Tenho presenciado, ao longo dos últimos meses no BH Indie Music, que se a banda apresentar mais de duas músicas não autorais, o público dispersa. Estamos conseguindo criar o público da música independente que é o mesmo que há alguns poucos anos, era obrigado a pagar couver pra ouvir Djavan na voz e violão naquele bar.

A genuína música independente, não está preocupada em se tornar hit de Malhação, mas reconhecida do público. Qualquer banda de estrada tem mais de 5.000 acessos no Myspace. Se as bandas estiverem preparadas para gerenciar a venda dos seus produtos, além da divulgação gratuita deles, este é o momento mais propício da auto-gestão do mercado independente de música. O público está preparado para o seu consumo.

Os festivais são festas que todos queremos participar. São aglomeradores de vários produtos em um único espaço e ocasião. Contudo, ainda não dividem os seus lucros e os holofotes. Não estão comprando shows de bandas independentes, se não as do mainstream. Em tristes casos, as bandas independentes são escaladas ao palco B, ou para aberturas de 20 minutos. Também são organizados ano a ano, o que dispersa a formação do público. É claro que muitos festivais defendem a cena e operam na margem do prejuízo, nem todos visam e têm lucro.

Mas vejo outros cometendo um grande equívoco de produção: escolhendo bandas com público formado por fiéis amigos e familiares, em detrimento de qualidade. Sem nenhum quesito avaliatório que seja qualitativo. Por experiência com o BH Indie Music, descobri que qualidade musical no palco atrai o público e o faz fiel aos eventos e festivais de música independente.

Valoriza a cena e quem faz parte dela. São agitadores culturais contraditórios, os que trabalham uma cena independente com “público formado”, já que os festivais cumprem, na sua filosofia, o fomento de público para a cena independente.

Acredito que, mais que os festivais, os veículos criados por eles, e por outros comunicadores independentes, cumprem um papel fonográfico e divulgador mais eficaz. A partir deles, conheço a nova música com destaque e seu merecido respeito.

Na quinta feira, 16/4, publicaremos o restante da entrevista, não perca!

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